O banheiro do Papa

O filme “O Banheiro do Papa”, de César Charlone, aborda a visita do papa João Paulo II a Melo, no Uruguai, em 1988. Ou melhor, mostra todo o grande esforço da comunidade pobre local para lucrar alguma coisa com o evento e melhorar um pouco a vida. A comida foi o produto escolhido por todos, que acabaram por endividaram-se ainda mais para comprá-la. Porém Beto, o protagonista, teve uma ideia diferente: construir um banheiro. Todos precisariam aliviar-se depois de um dia comendo e esperando o Papa, não é mesmo?

Beto era contrabandista, e assim como os colegas, buscava uma vida melhor. Entre os contrabandistas, havia os com um pouco mais de dinheiro, que faziam o transporte em motocicletas, e os mais pobres, que iam de bicicleta, dos quais Beto fazia parte. Diariamente Beto era ultrapassado pelas motocicletas, o que fazia com que sonhasse em comprar uma para agilizar seu contrabando.

O transporte de mercadorias, que eram revendidas para mercados ou para as pessoas comuns, lembra o conceito da cultura como “carga” desenvolvida pelo antropólogo Roy Wagner no livro “A Invenção da Cultura”*. Ao realizar um estudo de campo junto ao povo daribi, da Nova Guiné, Wagner percebeu que a ideia que os daribi tinham sobre a cultura ocidental era de algo baseado na “carga”, ou seja, no transporte de produtos. É possível fazer a mesma relação com a situação mostrada no filme, não só do ponto dos mais pobres, mas do sistema como um todo, sempre ávido por coisas, e coisas precisam ser transportadas, inclusive transportar a si mesmas para ver uma figura importante.

No filme, Beto empenha todas as suas forças na construção de um banheiro para a visita do Papa, usando até o dinheiro que tinham guardado para os estudos da filha. Enquanto isso, seus vizinhos investiam em comida, motivados pela ampla cobertura da televisão sobre o evento, que fazia previsões para um grande público.

Silvia, filha de Beto, via o evento com outros olhos. Era atraída pelos jornalistas e sonhava um dia entrar na profissão. Ao mesmo tempo, ficava aborrecida com as atitudes do pai, que em uma mistura de egoísmo e necessidade, usava o dinheiro que a mãe guardava para seus estudos na construção do banheiro. Na relação entre pai e filha, também é observável a estrutura do Estado no interior da família, já que da mesma forma que o Estado tentava confiscar os produtos de Beto, o pai controlava e tentava confiscar o gosto pelo estudo da filha.

A televisão anunciava 10 quilômetros de filas de ônibus de peregrinos brasileiros, mas frustrando todas as expectativas, o discurso papal dura cerca de 15 minutos, e número muito pequeno de pessoas foi ao evento. As vendas foram horríveis, e a multidão de “turistas-devotos” era totalmente indiferente à população local, que cada vez ficava mais desesperada ter investido o pouco que tinha.

As cenas finais do filme mostram os olhares tristes da população de Melo, a sujeira deixada e bandeiras do Vaticano cobrindo linguiças, em uma oposição entre sacro e profano.

A irresponsabilidade da mídia naquela ocasião faz com que Sílvia perca o encanto pelo jornalismo, e passe a ajudar o pai com o contrabando, agora a pé, pois não havia mais bicicleta.

Mas apesar de tudo, no final Beto enche-se de esperança e alegria e diz ter uma nova ideia para o banheiro.

Referencial:

* WAGNER, Roy. A Invenção da Cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

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