A arte visceral e mística de Karin Lambrecht

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Experiências pessoais

Meu primeiro contato com a obra de Karin Lambrecht aconteceu por acaso, em um passeio por Porto Alegre, quando decidi entrar no Santander Cultural, pois tinha bastante tempo naquele dia.

A exposição para mim foi arrebatadora, e me fez lembrar da minha avó, em uma lembrança ao mesmo tempo cheia de doçura e muita dor. Isso porque Lambrecht trabalha com crucifixos, ouro, rasgos, palavras, rins e sangue (literalmente).

A simbologia católica estava toda lá, em todo o seu sofrimento, beleza e repressão. Aquele era o mundo da minha avó, embora ela, diferente de Karin, não tinha qualquer erudição ao tratar do tema. Minha avó vivia o catolicismo sem compreendê-lo, apenas por temê-lo e achá-lo correto, como fazem tantas avós.

Eu, do contrário, só tinha sofrimentos perante o cristianismo, mas amava minha avó com uma força incomensurável. E assim, diante de telas pintadas com sangue e tantas outras com trechos das Escrituras, minha emoção não poderia ser outra do que uma nostalgia doce e dolorida.

“Sem título”, 1999-2000. Terra rosa da região de Caraiva, sul da Bahia, em meio acrílico e carvão sobre lona.

A artista e sua obra

Karin Lambrecht nasceu em Porto Alegre em 1957, e é conhecida pela força com que trabalha a mitologia cristã. Seu trabalho está repleto de palavras, tanto soltas quanto de textos das Escrituras. Seu trabalho é forte e pulsante, com uma riqueza de tons de vermelho, azul e do amarelo em tons de ferrugem.

Esta potência entre o grotesco e o sublime vem desde o início de sua carreira, quando concebia suas obras com resíduos industriais. Depois, vieram as telas rasgadas e o sangue de animais. Sua obra é uma representante perfeita do enlace ao mesmo tempo bárbaro, sublime e místico do cristianismo.

“Animal”, 2004. Sangue de carneiro sobre tecido branco e papel .

Os materiais de suas obras constituem um elemento fortíssimo de sua expressão, ligados à transitoriedade da vida, ao sacrifício e à mística. Além do sangue e dos rasgos, dos tecidos amassados e penduradas e das marcas da indústria, Lambrecht utiliza arames contorcidos de modo agonizante sobre cruzes de papel; permite que o tempo atue sobre suas obras, deixando-as expostas à natureza durante seu processo de criação, em um resultado absolutamente intenso e sublime.

Seu trabalho é uma verdadeira materialização do cristianismo. Se os artistas do passado retrataram as figuras cristãs em uma idealização angelical, Lambrecht mostra-nos o cerne, o coração pulsante de dor e magia da religião.

“Mundu”, 2011-2012. Pigmentos em emulsão acrílica, chuva, marcas de pedras e caligrafias sobre lona.

Para conhecer em profundidade

A obra de Karin tem a profundidade e vastidão oceânicas, e como tal, nos dá uma sensação de nunca poder ser compreendida em totalidade, tão profundos que são seus abismos, seus mistérios, referências e processos. Quando tentamos explicá-la, parece que entramos em um domínio do sentir em que nos faltam palavras e nos resta apenas a intensidade do sentir.

Quem mergulhou fundo no oceano que é a obra de Karin Lambrecht foi Glória Ferreira, que organizou o primeiro e muito rico livro sobre a artista, publicado pela Cosac Naify, trazendo suas pinturas mais importantes, além de colagens e instalações.

O livro é extremamente farto em imagens, todas coloridas. Com formato grande e quase 300 páginas, permite uma apreciação intensa da obra de Lambrecht. Além do farto material gráfico, a obra ainda conta com uma entrevista com a artista feita por Agnaldo Farias, bem como esclarecedores textos de Glória Ferreira, Miguel Chaia e Viviane G. Araújo.

E o livro não para por aí. Seu final é reservado para uma cronologia e uma genial “Fortuna Crítica”, com textos sobre a artista escritos por outros seis estudiosos, fornecendo um mergulho intenso e esclarecedor sobre a oceânica Karin Lambrecht. Estes textos são impressos em tinta bordô, fazendo uma alusão a suas obras em sangue. As separações internas do livro também são em bordô, impresso em páginas inteiras, em um projeto gráfico que se mostra conhecedor da obra, e acaba por unir-se a ela na imersão visual que o livro apresenta.

Karin Lambrecht tem, sem qualquer dúvida, uma das produções mais intensas e ricas em materiais da arte contemporânea brasileira.

Mais obras

“Desmembramento”, 2000. Linha de sangue derradeiro de carneiro sobre lona. 180 x 1.170 cm. Museu de Arte Moderna-RJ / Coleção Gilberto Chateaubriand.



“Meu corpo Inês”, 2005. Registro de ação e instalação.

“Morte d’luz”, 2007. Sobre uma tela (instalada em uma parede de 51 m2, no MAC-USP) coberta de mel de laranjeiras, cultivado pelo setor de Biociência da USP, cerca de três mil folhas de ouro.

“Sem título”, 1999 – 2000. Terra de diferentes regiões do Brasil, pigmentos em meio acrílico sobre lona.

“Dia”, 2005. Feltro sintético, papel, grafite, recortes, linho e cera de abelha.

O livro de Lambrecht pode ser encontrado na Amazon, que possui alguns dos últimos exemplares publicados pela Cosac Naify.

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