A poesia intimista de Wisława Szymborska

Quem já leu o poema “Sob uma estrela pequenina” certamente apaixonou-se por Szymborska. A poetisa polonesa vencedora do Nobel de Literatura de 1996 era praticamente desconhecida dos leitores brasileiros até 2011, quando a Companhia das Letras publicou o livro “Poemas”, com 44 de seus poemas, e uma capa cativante, com a simpática poetisa fumando.

Depois, em 2016, foi a vez dos brasileiros conhecerem as obras reunidas em “Um Amor Feliz”, também pela Companhia das Letras; e em 2018, o encantador “Riminhas para Crianças Grandes”, desta vez pela Ayine.

Com sua poesia de caráter cotidiano, Wisława consegue conectar-se com o leitor de forma íntima e delicada, evocando a beleza do ser comum e informal, sem perder o lirismo.

Wisława Szymborska nasceu em 1923, na Polônia. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como funcionária de uma ferrovia para evitar a deportação pelos nazistas. Neste período, escrevia alguns contos e fazia ilustrações para um manual de estudos de inglês.

Com o fim da Guerra, em 1945, entrou para a universidade para estudar Filologia Polaca, mas abandonou o curso para estudar Sociologia, porém não terminou os estudos por conta de sua situação financeira nada favorável.

Conhecida por ser reservada e tímida, pouco se sabe sobre sua vida privada, mas seus poemas mostram uma personalidade questionadora e sensível. Talvez o que mais nos fascine em sua obra seja sua incrível habilidade de trazer lirismo aos acontecimentos simples do cotidiano. Isso faz com que sua obra converse intimamente conosco, arrancando alguns sorrisos de nostalgia, e até pela beleza da melancolia.

Wisława faleceu em fevereiro de 2012, em Cracóvia.

E agora, saboreie “Sob uma estrela pequenina”:

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

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