O #tbt te deixa triste?

Esse não é daqueles textos que tentam te convencer a sair da Internet, fazer um detox digital, mochilão pra sei lá onde ou fugir para as montanhas, até porque a gente sabe que essas são opções para poucos, e que a Internet tornou-se tão presente em nossa cultura que sugerir negá-la é um pouco estranho, ainda mais em um post na própria Internet.

Enfim, o ponto de hoje é: Internet às vezes traz tristeza, uma melancolia aos nossos coraçõezinhos expostos a fotos lindas de gente feliz.

Pois bem, muitas vezes essa felicidade é fabricada. A hashtag “tbt”, ou “throwback Thursday”, usada para sinalizar fotos de momentos passados, é um exemplo do que nos faz sentir uma tristezinha em ver que aparentemente estamos sem fazer nada, enquanto os outros estão vivendo o melhor da vida.

Esse passado editado para parecer feliz tornou-se muito mais uma exposição construída, e na imensa maioria das vezes em nada traz nostalgia e saudade a quem está postando. É uma construção publicitária do ser comum, que nos fisga pelo sentido mais cobiçado atualmente: a visão. Afinal, somos os publicitários de nós mesmos, e queremos vender uma ideia de que temos uma vida legal, mesmo que possa não ser tão grande coisa assim.

Então, se você, assim como eu, fica triste por sua vida ser aparentemente chata e sem nada acontecendo, não se sinta culpado, você não está sozinho. Faz parte do jogo de se viver nos dias de hoje. Não precisa planejar um mochilão para sei lá onde para se desconectar das redes sociais. Se quiser pode, mas não precisa sofrer por isso.

A ideia da desconexão também é uma mercadoria, e ironicamente muitas vezes serve para alimentar as hashtags e nossa felicidade construída na rede.

Não precisa nem se desconectar se você não quiser, mas tente colocar na cabeça que essas felicidades cristalizadas em fotos são editadas, construídas para causar exatamente essa sensação de que a grama do vizinho é mais verde. E não é uma teoria da conspiração louca, não é problema exclusivo da plataforma, e sim a nossa natureza humana, que faz isso desde sempre, e que agora arrumou um jeito bem mais simples. Sim, há muitas corporações lucrando com isso e construindo as plataformas para se tornarem viciantes, mas esse é um assunto para outro texto. Aqui eu gostaria de me ater aos aspectos mais cotidianos.

Então, no lugar de ficar triste, você pode rir da felicidade inventada. Rir só para você, com você. Muito provavelmente, aquele conhecido postando fotos da viagem que fez em 2014, só quer que você tenha a impressão de que a grama dele é mais verde, enquanto ele mesmo inveja outras gramas. “Inveja”, do latim “invidia”, do verbo “invidere”: olhar com malícia. E invejar não é feio, é normal. Algumas pessoas lidam com isso postando fotos da praia do ano passado bem no meio do inverno, e tudo bem.

Crie a sua forma de lidar com isso. Você sabe muito bem que já viveu (e vive) coisas incríveis que não são postadas, e que há momentos tão puros e sublimes que postá-los seria quase “profaná-los”.

O Narciso agora é digital. E faz parte do jogo 🙂

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