Minimalismo: um convite para observar os abismos interiores

Aos poucos eu fui percebendo que minhas tristezas, angústias e decepções não passariam se eu comprasse alguma coisa para colocar no meu vazio. É algo clichê, sem genialidade alguma, mas que demora bastante para ser assimilado.

Conheci o minimalismo faz um bom tempo, e fui me conectando com ele de forma natural, sem me preocupar com o número de objetos que possuo, com a decoração ou com o meu visual. Fui encontrando o meu modo minimalista de ser, sem seguir blogs escandinavos. Para falar a verdade, eu nem gosto do nome, ou melhor, do rótulo de “minimalista”. Mas uso essa palavra mesmo para me fazer entender.

A principal lição que o minimalismo me trouxe foi de olhar para mim e encarar todos os abismos, fraquezas e todo aquele monte de coisas que tentamos esconder sob uma máscara de felicidade. É óbvio que nego muitas dessas fraquezas, e é bem provável que continuarei negando a imensa maioria dos meus abismos para sempre. Mas abrir os olhos para aquele 1% já me abalou bastante e permitiu me conhecer melhor.

Não me considero de modo algum livre do consumismo. Sou bem ciente de que sair para comprar é bom pra cacete, seja lá o que for. Dar aquela renovada, ter aquela sensação de que tudo vai ficar bem, de poder, de posse, de ser visto, e blá blá blá, vocês são inteligentes e sabem.

“Mas, porém, todavia, contudo”, como diria o sábio professor Girafales, essa alegria dura pouco, e logo logo volta toda aquela melancolia, e ficam as tralhas que compramos, que dependendo do tamanho, vão nos fazer bater o dedinho do pé no caminho para o banheiro de madrugada.

No meu caso, o que observei foi que quando comprava para aliviar as tristezinhas, me apoiava na ideia de ficar feliz por “possuir” algo. E muitas outras vezes também imaginava a reação das pessoas ao saberem que eu “possuía” tal coisa. Mas a maioria não estava nem aí por eu ter comprado algo ou não, e ficava eu com minha coisa sendo reizinho poderoso apenas para mim mesmo, porque os súditos imaginários que eu inventava nem sabiam que eu queria que fossem meus súditos.

E então, sem ninguém para admirar as merdas que eu tinha comprado, com a melancolia que não passava e com menos dinheiro na carteira, comecei a pensar que talvez fosse melhor aprender a lidar com aquele sentimentozinho melancólico. E doeu, doeu muito não colocar nada no lugar. Mas com isso, aprendi a fugir um pouco menos do que me incomoda de verdade em mim. 1% só, não vou fingir que me iluminei…

Acho que essa ideia da posse e acúmulo permeia muito nossa sociedade, indo desde os relacionamentos, conhecimentos, títulos, até a resolução de tristezas via consumo. E para quem tem um autocontrole menor, pode virar um problema sério com cartões de crédito.

Enfim, devaneios à parte, no final das contas todo mundo faz o que quer. Consumir não é errado, mas tomar consciência dos processos complexos que nos fazem consumir pode ser uma aventura pessoal interessante.

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